terça-feira, 19 de maio de 2009

EU CONHECI UM SANTO (Lembranças da família)

Eu passei três dias na cidade grande por compromissos profissionais, e confesso que já não aguentava mais, cheguei até a sonhar com a calma que me aguardava aqui em Saquarema.

Mas, finalmente, aqui estou aqui é meu lugar!

Daqui da pedra na praia da vila, lugar que escolhi para a pescaria de hoje, bem ao lado da igreja da padroeira NAZARÉ, o panorama é deslumbrante, o mar que estoura lá em baixo cadenciada mente, levantando uma cortina de espuma salgada e refrescante. O sol que já faz quase hora se levanta preguiçoso e belo sobre nossa vila, é convite para relaxar corpo e mente.

Hoje não é só o sol que aparece preguiçoso, eu também me sinto assim. Embora sem querer me comparar com o astro rei, mas também passo por esse processo embriagante que num passe de mágica consome toda adrenalina desse saquaremense de já tantas décadas. Deixo as tralhas de lado, que pescaria hoje não tem importância, e lanço carreira para as recordações. Primeiro às mais recentes, fruto dos três dias na cidade grande, como: A noticia sobre o pessoal da área de saúde, que numa atitude muito estranha saem de seus ambientes de trabalho e vão para rua, tomam conduções e frequentam bares, lanchonetes e restaurantes com seus jalecos brancos, potencialmente contaminados numa atitude, não sei se orgulhosa. Mas com certeza, perigosa. Por que será?

Me vem a queda do nosso Caetano, lá num palco de Brasília, quando cantava "força estranha" e me recordo que "forças ocultas" já quedaram um presidente, lá mesmo nessa Brasília, um que se chamava Jânio, e não gostava de briga de galo.

Chego à década de 40 já quase num delírio, e lá me fixo numa pessoa, aliás duas: Minha avó, dona Elpídia e meu avô, seu Jerônimo, esse, um Santo!

Ó de casa...Somos nós comadre Elpídia!!

-"Jerônimo, venha logo homem lerdo, ajudar os compadres saltar dessa canoa, que tem criança de colo. Que diacho de homem mole".

-"Me dê cá esta corda compadre Antônio, e tome cuidado que este primeiro degrau tá meio podre. Tô esperando tempo bom para conserta-lo!".

-'Não se preocupa Jerônimo, que ainda sou caboclo bom das vistas e das pernas, e me diga quando chegar esse tempo bom, que eu venho lhe ajudar no conserto, homem de Deus!".

-"Precisa não compadre, que Jerônimo tá sempre esperando tempo bom. Até o dia que esse bendito trapiche cair. Comadre Florzinha vá entrando com as crianças, que acabei de amassar um alguidar de açaí e tem peixe salgado do bom, do que vocês gostam: Gorijuba e mapará".

Isso foi há muito tempo, muito tempo mesmo, lá pelas bandas do Moju no estado do Pará perto do meu Amapá perto da minha latitude zero, onde os caminhos são os rios e as conoas, caícos e ubás, são os meios de transporte.

Dona Elpídia de Oliveira Marquez, minha avó, apenas minha avó. cabocla de descendência indígena, também do Moju, mulher decidida e sagaz, bem escolarizada, falando e escrevendo o português, o francês e o esperanto, coisa que até hoje eu não sei onde ele aprendeu, pois que lá por àquelas bandas nem escola havia. Boa no trabalho, na diversão e na encrenca. Viúva de Emigdio Marquez Nevanes, meu avô, militar, espanhol falecido logo depois da segunda grande guerra. Havia, ela, vivido anos dentro do regime de disciplina da caserna, e agora se via com três meninas e um menino para criar, sem pai e apenas com a renda de dez estradas de borracha, que lhe ficou do seu marido militar, e que agora tinha de levar pra frente, sozinha. É quando entra em nossas vidas seu Jerônimo Antônio, meu avô, quase meu avô...ah se fosse meu avô!

Jerônimo Antônio...Esse era seu nome, aliás um pouco maior, mas eu realmente não consigo me lembrar. Um negro entre o alto e o baixo, estatura média, pele reluzente, cabelos lisos e sedosos, sorriso largo, olhar generoso, braços de amigo, e coração de Santo, assim como os Santos lá do céu. Nascido lá pelas bandas do Moju, no Pará, em ano que eu também não lembro bem. Seu Jerônimo era um plantador de flores, trabalho que lá por aqueles cantos era de se admirar. Esmolava com São Benedito ao colo à frente de uma folia quando se aproximava o mês da festa do Santo que é lá pelos tempos de março,... abril, angariando fundos para os festejos. E essa imagem tenho gravada até hoje: A folia indo de casa em casa, àquela música e àquelas cantorias que pareciam sair da boca dos anjos. Coisa que minha avó confirmava como verdade, e eu até hoje acredito.

-"Dá licença senhora, permita que São Benedito entre neste lar!"

-"Se achegue compadre, pois que nós estamos esperando a visita do Santo faz é dias".

-"Em nome de Deus, Jesus e são Benedito, vamos cantar neste lar...E assim seguiam-se rezas e cantorias divinas n'aquele lar feliz. Viola, violão, reco-reco de bambu, cavaquinho, pandeiro, tambor, vozes entoadas em primeira e segunda, sinfonia brejeira e cabolcla. Mas divinal.

-"E agora comadre, que nada seja por obrigação mas que seja por amor e devoção. Se a Senhora for fazer alguma oferta para a festa do Santo, que seja assim: Se o óbulo for dado em moeda, que seja entregue ao compadre Zé Pará, que vai lançar escritura em livro próprio; Se for em víveres, cabrito, porco, pato, galinha ou boi, que seja entregue na casa dos festejos, até cinco dias antes da primeira ladainha. E se for ajuda de serviço, que seja combinado com comadre Mariazinha. De qualquer forma que o tratado se cumpra lá pra perto da festa, pois que agora não precisamos de nada. E que Deus lhe pague e encha esta casa de felicidade e paz. E assim seu Jerônimo esmolava trinta, quarenta dias por àquelas ruas d'aquele interior, lá do Pará, com a mesma emoção, com a mesma devoção.

Duma feita ao chegarem a frente de uma residência e após o pedido formal para apresentação da folia, receberam resposta não muito amiga.

-"Retire-se de minha porta com esta bobagem se Santo, pois que Santo preto não devia de existir sequer, e não vai ser na minha casa que ele vai entrar!" (Pois que São Benedito e preto que nem carvão). Seu Jerônimo que era tão Santo quanto o que carregava em seu colo, e também negro, ajoelhou-se em plena terra d'aquele terreiro, em frente d'aquela casa, no que foi seguidos pelos de sua folia, e por mais de meia hora rezaram em baixa voz por aquela que lhes tinha dado a mal resposta. Sem perder a razão com emoção e a paciência divinal.

Assim era meu avô, quase meu avô ...ah se fosse meu avô.

Desperto do meu devaneio, atordoado e saudoso e fito para acima a presença de um amigo, pescador, que só conheço pelo apelido de Velho e que me perscruta: Home de Deus cê ainda não pescou nadinha hoje?

Abro melhor os olhos míopes nesta linda manhã aqui na beira do atlântico, minh' Alma indisfarçávelmte sorridente lhe responde por minha boca humana.

-"E precisava?!!......"

Copyright by Waggner Marquez - wagnermarques1@hotmail.com

Saquarema, 18 de maio de 2009 - na beira do atlântico.

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